Transtorno de Ansiedade: O Que É, Sintomas e Tratamento

O transtorno de ansiedade é uma condição em que a ansiedade se torna persistente, descontrolada e desproporcional à realidade, interferindo na vida diária de quem sofre deste transtorno. Não é uma fase, não passa sozinho, e não tem nada a ver com falta de força de vontade. É uma das perturbações de saúde mental mais comuns em Portugal e no mundo, e continua a ser das mais mal compreendidas.

Vivo com transtorno de ansiedade generalizada desde jovem. Sei o que é acordar com o peito apertado sem razão, sentir o coração a disparar no meio de uma reunião, evitar situações banais porque o cérebro as classifica como ameaças. Aqui explico o que é esta condição da forma como gostaria que me a tivessem explicado.

O que é o transtorno de ansiedade

A ansiedade é uma resposta natural do nosso organismo. Serve para nos alertar para o perigo e preparar-nos para reagir. É útil, necessária, e faz parte de nós. A Organização Mundial de Saúde reconhece as perturbações de ansiedade como um dos problemas de saúde mental mais prevalentes a nível global.

O problema começa quando essa resposta se ativa sem perigo real. Quando o alarme toca mesmo em casa, sozinho, sem nenhuma ameaça concreta, quando o estado de alerta deixa de ser temporário e passa a ser a norma.

É essa a essência desta perturbação: um sistema de resposta ao medo descalibrado, que continua a produzir alarme muito além do necessário, com um custo físico e emocional enorme.

Existem vários tipos de perturbação ansiosa. O transtorno de ansiedade generalizada é o mais comum e caracteriza-se por preocupação excessiva e persistente com múltiplas áreas da vida. O transtorno de pânico envolve ataques de pânico recorrentes. A agorafobia, que desenvolvi como consequência dos ataques de pânico, é o medo de situações de onde seria difícil escapar. E depois há a fobia social e as fobias específicas, cada uma com as suas particularidades.

Sintomas: o que sentes quando tens esta perturbação

Os sintomas do transtorno de ansiedade dividem-se em físicos, emocionais e comportamentais.

Do lado físico: palpitações, aperto no peito, falta de ar, tensão muscular, dores de cabeça, insónia, fadiga, suores, tremores, boca seca, problemas digestivos. O corpo vive em modo de sobrevivência permanente, e isso nota-se. A ligação entre ansiedade e sono é um dos exemplos mais claros: a mente não desliga, e o descanso nunca é completo.

Do lado emocional: preocupação excessiva e difícil de controlar, irritabilidade, sensação de que algo mau está prestes a acontecer, dificuldade de concentração, pensamentos intrusivos que não consegues parar.

Do lado comportamental: evitamento de situações ou lugares, isolamento progressivo, dificuldade em cumprir compromissos. Cheguei a não conseguir sair de casa durante três meses. Isso é o que o evitamento, quando não tratado, pode tornar-se.

Para que o diagnóstico de transtorno de ansiedade generalizada seja feito, os sintomas têm de estar presentes na maioria dos dias durante algum tempo e causar sofrimento significativo.

Causas: porque é que isto acontece

Não há uma causa única. Esta condição resulta de uma combinação de fatores genéticos, neurológicos e ambientais.

Há uma componente hereditária: quem tem familiares com perturbações ansiosas tem maior probabilidade de as desenvolver. Há alterações em neurotransmissores como a serotonina, a noradrenalina e o GABA que influenciam a forma como o cérebro processa a ameaça. E há fatores de vida: stress prolongado, traumas, mudanças abruptas, ou simplesmente anos a acumular tensão sem a processar. O burnout, por exemplo, é frequentemente um gatilho ou agravante desta perturbação.

Portugal é, segundo a CUF, um dos países da Europa com maior consumo de ansiolíticos. Não é coincidência: somos também um dos países com maior prevalência deste tipo de perturbação.

Como se trata o transtorno de ansiedade

Tem tratamento e funciona.

A psicoterapia, em particular a terapia cognitivo-comportamental, é a abordagem com maior evidência científica. Ajuda a identificar e modificar os padrões de pensamento que mantêm o estado ansioso ativo. Não é magia, é trabalho, mas os resultados aparecem.

Em muitos casos, a medicação é um apoio importante, especialmente nas fases mais agudas. Ansiolíticos e antidepressivos podem estabilizar os sintomas e criar as condições para que a terapia seja mais eficaz. Tomei medicação durante anos. O desmame foi duro, mas nessa altura era o que o meu corpo precisava.

Em comlemento, há práticas que fazem diferença: técnicas de respiração, mindfulness, exercício físico regular, higiene do sono. Não substituem o tratamento, mas ajudam a criar um contexto mais favorável à recuperação. No contexto do trabalho e ansiedade, por exemplo, estas ferramentas podem ser a diferença entre aguentar um dia difícil ou entrar em colapso.

O mais importante: procura ajuda profissional. Seja um médico de família, um psicólogo ou um psiquiatra. Esta perturbação não se resolve sozinha à força de vontade, e não tens de tentar.

FAQ

O que é o transtorno de ansiedade generalizada?

É o tipo mais comum de perturbação ansiosa, caracterizado por preocupação excessiva e difícil de controlar relativamente a várias áreas da vida, como trabalho, saúde, família e finanças. Para o diagnóstico, os sintomas têm de estar presentes na maioria dos dias durante pelo menos seis meses.

Quais são os principais sintomas do transtorno de ansiedade?

Os sintomas incluem palpitações, aperto no peito, falta de ar, tensão muscular, insónia, fadiga, dificuldade de concentração, preocupação excessiva e tendência para evitar situações. Os sintomas físicos são frequentemente confundidos com problemas cardíacos, o que atrasa o diagnóstico.

O transtorno de ansiedade tem cura?

A grande maioria das pessoas melhora significativamente com tratamento adequado. Alguns atingem remissão total dos sintomas. Outros aprendem a gerir a condição de forma a que deixe de interferir na qualidade de vida. Com o acompanhamento certo, é possível viver bem.

Qual a diferença entre sentir ansiedade e ter transtorno de ansiedade?

A ansiedade é uma emoção normal, proporcional e temporária. A perturbação ansiosa é persistente, muitas vezes sem causa aparente, e interfere nas atividades diárias durante pelo menos seis meses. Não passa por força de vontade.

Devo procurar um psicólogo ou um psiquiatra?

Ambos podem ajudar. O psicólogo faz acompanhamento terapêutico; o psiquiatra pode também prescrever medicação quando necessário. Em casos mais severos, a abordagem combinada é a mais eficaz. O passo mais importante é começar.

O que fazer durante um ataque de pânico?

Se estás a ter um ataque de pânico, o primeiro passo é reconhecer o que está a acontecer: é ansiedade, não um perigo real. Tens mais informação sobre o que fazer num ataque de pânico neste artigo dedicado ao tema.

Se te reconheces neste artigo e ainda não procuraste ajuda, este é um bom momento para dar esse passo. Não tens de perceber tudo de uma vez, só tens de começar. O resto vai aparecendo.

 

Isto é a minha experiência, não um conselho clínico. Precisas de ajuda? Linha SNS 24: 808 24 24 24.

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