
Em 2002, tive o meu primeiro ataque de pânico. Não sabia o que era, Pensei que estava a morrer literalmente. Estava preso no trânsito da Avenida da República, em Lisboa, quando o meu corpo entrou em colapso sem qualquer aviso: coração descontrolado, falta de ar, suor frio, sensação absoluta de morte iminente. Ninguém tinha nunca falado comigo sobre ataques de pânico. Não tinha nome para o que estava a acontecer. Se chegaste aqui porque viveste algo parecido, fica, podes reconhecer-te nisto.
Uma manhã de inverno em Lisboa
Era uma manhã típica de inverno lisboeta. Trânsito, caos, pressa, fila interminável na Avenida da República. Ia a caminho do trabalho, num dia igual a tantos outros. Nada que fizesse adivinhar o que estava prestes a acontecer.
E foi aí que tudo começou.
Os sintomas que senti quando o corpo perdeu o controlo
À medida que o trânsito se arrastava, comecei a sentir uma estranheza difícil de descrever. Não era dor, era uma sensação de que algo estava errado, mas sem conseguir perceber o quê.
O coração começou a bater de forma descontrolada, não como quando corremos, mas como se todo o meu corpo fosse um coração fora de ritmo. A respiração deixou de ser automática, cada inspiração exigia esforço, o oxigénio parecia recusar-se a entrar.
O suor frio apareceu na testa, as mãos ficaram geladas, o peito ardia. E então veio o pior: a sensação de que o mundo à minha volta estava a distorcer-se, como ver a minha própria vida através de um vidro embaçado.
Estava a ter um ataque de pânico, só que não sabia. Se queres perceber melhor o que se passa no corpo durante estas crises, escrevi sobre isso em : Como é um ataque de pânico?
O pico: a sensação de morte iminente
Parei o carro. Saí. Fiquei especado no passeio a olhar para as pessoas, com o cérebro a pedir socorro mas sem conseguir articular uma palavra.
A sensação de morte iminente é real. Não é drama, não é exagero, é o que o corpo comunica ao cérebro durante um ataque de pânico intenso. Pensei que estava a ter um ataque cardíaco, ou um AVC. A única coisa que parecia certa era que ia morrer ali, naquela berma da estrada.
Terão sido uns cinco minutos mas pareceram uma vida inteira. Foram, sem dúvida, os piores cinco minutos da minha vida.
Depois, devagar, o corpo foi cedendo. Cheguei ao trabalho nesse dia completamente esgotado, mas cheguei.
Por que é que o primeiro ataque de pânico é tão assustador?
Porque acontece sem aviso e sem explicação. O sistema nervoso entra em modo de emergência, liberta adrenalina, acelera o coração, prepara o corpo para fugir ou lutar, mas não há nenhum perigo real. E o cérebro, sem conseguir identificar a causa, chega à única conclusão que parece fazer sentido: algo de grave está a acontecer.
É por isso que tantas pessoas vão à urgência depois do primeiro ataque de pânico. Não é exagero nenhum, é uma resposta completamente natural a uma experiência aterradora. Segundo a Ordem dos Psicólogos Portugueses, as perturbações de ansiedade são das mais prevalentes em Portugal, mas continuam sub-diagnosticadas.
O que acontece depois do primeiro ataque de pânico?
Tudo muda.
Não no sentido dramático que às vezes se lê. Muda porque passas a carregar uma pergunta que não sai da cabeça: e se voltar a acontecer? Esse medo do próximo ataque é muitas vezes o que alimenta os seguintes. O corpo entra em hipervigilância, qualquer sensação física estranha vira um sinal de alarme.
No meu caso, foi o início de anos a viver com transtorno de ansiedade generalizada e ataques de pânico frequentes. Cheguei a desenvolver agorafobia que me deixou semanas sem conseguir sair de casa. A recuperação foi longa, passou por psicoterapia, medicação, técnicas de respiração e exposição gradual. Mas foi possível.
Se estás a começar este caminho, a coisa mais importante é não ignorares o que aconteceu. Procura ajuda, e lembra-te: não estás sozinho.
O que aprendi em mais de 20 anos com ataques de pânico
A coisa mais importante que aprendi é que um ataque de pânico não mata. Parece que sim mas não O corpo faz tudo para convencer o cérebro de que sim mas não mata.
A segunda: o silêncio em volta disto é enorme. Há muita gente a viver com ataques de pânico sem nunca ter falado com ninguém, sem saber sequer o nome do que tem. Falar foi uma das coisas que mais me ajudou, primeiro com um psicólogo, depois publicamente.
É por isso que escrevo aqui. Para que quem esteja a ler se sinta menos sozinho. Se ainda tens dúvidas sobre o que viveste, este artigo pode ajudar: Ataques de Pânico: O Que São, Sintomas e Como Tratar. E para reconheceres os sinais mais comuns, podes consultar também os 6 sintomas de um ataque de pânico.
FAQ — Perguntas frequentes sobre o primeiro ataque de pânico
O que acontece durante um primeiro
ataque de pânico?
O corpo entra em modo de emergência sem que haja um perigo real. O coração acelera, a respiração torna-se difícil, surgem tonturas, suores frios e formigueiros, e um medo intenso de morte ou de perda de controlo. Passa ao fim de minutos, mas parece uma eternidade.
É normal pensar que se está a morrer durante um ataque de pânico?
Sim, é muito comum, e é uma das razões pelas quais muitas pessoas vão à urgência depois do primeiro ataque. A sensação de morte iminente faz parte do quadro típico. Não significa que algo de grave esteja a acontecer, mas é quase impossível acreditar nisso no momento.
O primeiro ataque de pânico pode acontecer sem razão aparente?
Sim, o meu aconteceu num dia banal, no trânsito, sem qualquer acontecimento traumático. Os ataques de pânico podem surgir aparentemente do nada, o que os torna ainda mais confusos para quem os vive pela primeira vez.
O que devo fazer depois de ter tido o meu primeiro ataque de pânico?
Procura ajuda profissional, um médico para descartar causas físicas, e um psicólogo para trabalhar a ansiedade. Ignorar raramente funciona. O medo do próximo ataque de pânico é muitas vezes o que alimenta os seguintes.
Um primeiro ataque de pânico significa que terei ataques para sempre?
Não necessariamente. Um único episódio não define um diagnóstico, mas se os ataques se repetirem, ou se o medo de que voltem começar a limitar a tua vida, é importante procurar ajuda. Com o tratamento certo, é possível recuperar e eu sou prova disso.
Já passaram mais de 20 anos desde aquele dia na Avenida da República. Aprendi muito desde então sobre ansiedade, sobre ataques de pânico, e sobre o que ajuda de verdade. Se quiseres continuar, começa por Como é um ataque de pânico?. E se quiseres partilhar o que viveste, deixa um comentário abaixo.
Isto é a minha experiência, não um conselho clínico. Precisas de ajuda? Linha SNS 24: 808 24 24 24.
