
Há sítios que para a maioria das pessoas são só sítios. Para mim, durante anos, um centro comercial foi um campo minado, e por vezes ainda é. A sensibilidade a estímulos e ansiedade andam de mãos dadas quando se sofre de transtorno de ansiedade generalizada, e eu aprendi isso da pior forma possível. Em pleno hipermercado, com um carrinho de compras a meio, incapaz de continuar.
Lembro-me perfeitamente da sensação. As luzes que nunca param de piscar, o som de dezenas de conversas sobrepostas, música ambiente, caixas registadoras a apitar, gente a passar demasiado perto… tudo ao mesmo tempo. E o meu corpo reagia como se aquilo fosse uma ameaça real, coração a acelerar, mãos a suar, uma vontade brutal de sair dali imediatamente.
Não era falta de coragem, era sensibilidade a estímulos a funcionar no limite, o meu sistema nervoso em sobrecarga total.
O que é a sensibilidade a estímulos na ansiedade
Quando se vive com ansiedade, o cérebro fica permanentemente em alerta. Isso significa que processa mais informação sensorial do que consegue gerir, e ambientes com muito estímulo ao mesmo tempo, luz, som, gente, movimento, tornam-se insuportáveis muito mais depressa do que para outra pessoa qualquer. A Cleveland Clinic explica que este excesso de estímulos, se não for gerido, pode mesmo desencadear um ataque de pânico.
Nos meses em que vivi fechado em casa, quase sem sair do quarto, evitava estes sítios por completo. Se tiveres curiosidade sobre essa fase da minha vida, escrevi sobre isso no artigo sobre transtorno de ansiedade. Quando comecei o processo de exposição gradual, os centros comerciais e hipermercados foram dos desafios mais difíceis que enfrentei, precisamente por concentrarem tantos gatilhos ao mesmo tempo.
Como reconhecer um ataque de pânico ligado a sobrecarga sensorial
Os sintomas costumam começar por uma sensação de calor súbito, seguida de aperto no peito, tonturas e uma necessidade urgente de sair do espaço. Muitas vezes surge também a sensação de que as paredes se aproximam, ou de que já não se controla o próprio corpo. Se isto te é familiar, não estás a exagerar. A Mayo Clinic descreve esta ligação entre o medo de espaços cheios de gente e o receio de não conseguir escapar facilmente, algo que reconheço tão bem.
Se nunca souberes bem o que fazer no momento exato da crise, já escrevi um artigo mais prático sobre o que fazer num ataque de pânico, com os passos que uso até hoje.
O que me ajudou a lidar com isto
Não desapareceu de um dia para o outro. Aprendi a gerir a minha sensibilidade a estímulos aos poucos. Comecei por ir a estes espaços em horários mortos, com menos gente, depois fui aumentando o tempo lá dentro, sempre com técnicas de respiração à mão, forcei-me a não desistir. A terapia ajudou-me a perceber que o problema nunca foi o centro comercial em si, mas a forma como o meu corpo interpretava aquele excesso de estímulos. Se quiseres perceber melhor a raiz disto tudo, tenho também um artigo mais completo sobre ataques de pânico.
Perguntas Frequentes
A sensibilidade a estímulos é normal em quem tem ansiedade?
Sim, a sensibilidade a estímulos é um dos sintomas mais comuns e mais mal compreendidos do transtorno de ansiedade generalizada e da agorafobia.
Porque é que os centros comerciais provocam mais ansiedade do que outros espaços?
Porque concentram vários gatilhos sensoriais ao mesmo tempo, luz artificial, ruído, multidões e pouca sensação de controlo ou saída fácil.
Sensibilidade a estímulos é o mesmo que agorafobia?
Não, mas estão muitas vezes ligadas. A agorafobia é o medo de estar em sítios de onde é difícil escapar, e a sobrecarga sensorial pode ser um dos gatilhos.
É possível reduzir a sensibilidade a estímulos e voltar a frequentar estes espaços sem ansiedade?
Sim, com exposição gradual e as ferramentas certas, é possível reduzir muito a intensidade da resposta ao longo do tempo.
Quando devo procurar ajuda profissional?
Se estes episódios te impedem de viver o dia a dia normalmente, vale sempre a pena falar com um psicólogo ou médico de família.
Não estás sozinho nisto
Se te revês nalguma coisa que li aqui, deixa um comentário ou explora os outros artigos do site. Partilhar isto é, para mim, uma forma de transformar anos difíceis em algo útil para quem está a passar pelo mesmo agora.
Isto é a minha experiência, não um conselho clínico. Precisas de ajuda? Linha SNS 24: 808 24 24 24.
