
Como é um ataque de pânico? A resposta curta: é aterrador, mesmo quando já sabes o que é. A resposta longa é este artigo. Não vou descrever os sintomas como uma lista clínica, isso podes encontrar em qualquer sítio. Vou descrever como se sente por dentro, o que o corpo faz, o que o cérebro pensa, e o que fica depois. Escrevo isto depois de mais de 20 anos a viver com ataques de pânico. De dentro, não de um consultório.
Começa sem avisar
Não há prólogo, não há sinal de que algo está prestes a acontecer. Podes estar a conduzir, a trabalhar, a tomar café, a fazer algo completamente banal, e de repente o corpo muda.
O coração é quase sempre o primeiro a reagir. Não acelera gradualmente como quando subimos escadas. Dispara. De zero para o máximo em segundos, de uma forma que não tem ritmo certo, irregular, pesada, como se batesse contra as costelas por dentro. Sentes-o na garganta. Às vezes na cabeça.
A respiração vem a seguir, ou ao mesmo tempo. Passa a exigir esforço consciente. Cada inspiração parece não chegar, o ar entra mas não é suficiente, e quanto mais tentas respirar, mais a sensação de asfixia aumenta. É um ciclo que se fecha sobre si próprio.
O suor frio aparece, as mãos ficam geladas, o peito arde. E no meio de tudo isto, há uma estranheza que é difícil de descrever, como se a realidade estivesse ligeiramente desfocada, como ver tudo através de um vidro com névoa. O mundo continua à tua volta. Tu já não estás bem dentro dele.
O pico: a convicção de que vais morrer
Isto não é metáfora nem exagero. Durante um ataque de pânico, o cérebro recebe do corpo exactamente a mesma informação que receberia se estivesses a ter um ataque cardíaco: coração a disparar, falta de ar, dor no peito, tonturas. E tira a única conclusão que parece fazer sentido com esses dados: algo de muito grave está a acontecer.
É por isso que a primeira reacção de tanta gente é chamar uma ambulância. É por isso que as urgências recebem todos os anos pessoas com ataques de pânico convictas de que vão morrer. Não estão a exagerar. O corpo está a comunicar perigo com toda a intensidade que tem.
O pico dura poucos minutos. Esses minutos parecem muito mais do que são. No meu primeiro ataque de pânico, em 2002, foram talvez dez minutos. Pareceram uma vida inteira. Fiquei especado no passeio da Avenida da República, em Lisboa, sem conseguir articular uma palavra, convicto de que ia morrer ali.
Não morri. Nunca ninguém morre de um ataque de pânico. Mas no momento, isso não ajuda muito.
O que fica depois
Quando passa, e passa sempre, o corpo fica exausto. Não é o cansaço de ter feito esforço físico. É uma exaustão mais funda, como se tivesses estado em alerta máximo durante horas. As pernas ficam moles. A cabeça pesa. Às vezes fica uma sensação residual de tontura ou de náusea que demora horas a dissipar-se.
Mas o que fica mais tempo não é físico. É a pergunta: e se voltar?
Esse medo do próximo ataque é, na maior parte dos casos, o que alimenta os seguintes. O corpo entra em hiper-vigilância, qualquer batimento mais forte, qualquer dificuldade respiratória, qualquer tontura passa a ser interpretada como o início de outro ataque. E essa interpretação, por si só, pode desencadear um. É o ciclo que mantém o transtorno de ansiedade vivo.
Com o tempo, muda, mas não desaparece por si
Depois de anos com ataques de pânico frequentes, aprendi a reconhecê-los. Consigo identificar os primeiros sinais, uma ligeira aceleração cardíaca, uma tensão específica no peito, e sei que aquilo provavelmente vai passar. Isso não os torna indolores. Mas tira-lhes algum poder.
O que não aconteceu foi desaparecerem por si. Precisei de ajuda profissional, primeiro um médico para descartar causas físicas, depois um psicólogo. Tomei medicação durante anos, paroxetina (Paxetil) e alprazolam (Xanax), num processo que incluiu um desmame longo e difícil. A terapia cognitivo-comportamental foi o que mais mudou as coisas a longo prazo. Segundo a Ordem dos Psicólogos Portugueses, é também a abordagem com mais evidência científica para o tratamento das perturbações de ansiedade.
Não me “curei” no sentido de nunca mais ter um ataque. Aprendi a viver com isto de uma forma que não me limita. Há diferença.
O que aprendi a fazer no momento
Quando um ataque começa, a tentação é fugir da situação, do lugar, de tudo. Essa fuga alivia no imediato mas ensina ao cérebro que aquele lugar é perigoso, o que torna o próximo ataque nesse contexto mais provável. Aprendi, com muito esforço e muita terapia, a ficar.
O que ajuda de verdade no momento é focar na respiração, não para “acalmar” (o corpo não obedece assim tão depressa), mas para dar ao sistema nervoso um sinal de que não há perigo real. Expirar devagar, mais devagar do que se inspira. Sentir os pés no chão. Descrever em voz baixa o que está à volta.
E repetir, mesmo sem acreditar: isto é um ataque de pânico. Vai passar. Para uma descrição detalhada do que sentes fisicamente, os 6 sintomas de um ataque de pânico estão descritos em detalhe neste artigo.
FAQ — O que as pessoas mais me perguntam sobre como é um ataque de pânico
Como é que se sabe se é um ataque de pânico e não um ataque cardíaco?
É uma das perguntas mais comuns, e a resposta honesta é que, na primeira vez, é muito difícil saber. Os sintomas físicos são parecidos. O mais sensato é ir à urgência para descartar causas cardíacas. Com o diagnóstico feito e com experiência acumulada, começas a reconhecer o teu próprio padrão de ataque de pânico. Mas nunca invalides os sintomas, se tens dúvidas, procura ajuda médica.
Um ataque de pânico pode durar horas?
O pico de intensidade raramente ultrapassa 10 a 20 minutos. O que pode durar mais tempo é uma ansiedade elevada antes ou depois, ou uma sequência de ataques menores. Se sentires que o ataque não passa de forma alguma, procura ajuda médica.
É possível ter um ataque de pânico a dormir?
Sim. Os ataques de pânico noturnos existem e são particularmente desorientadores porque acordas já no meio do pico, sem perceber o que aconteceu. São menos comuns mas igualmente reais..
Um ataque de pânico passa mais depressa se ignorares?
Ignorar no sentido de não alimentar os pensamentos catastróficos ajuda. Fugir da situação alivia no imediato mas pode piorar a ansiedade a longo prazo. O que mais ajuda é aceitar que está a acontecer, manter a respiração controlada e não lutar contra os sintomas, quanto mais resistência, mais intensidade.
Posso ter ataques de pânico sem ter diagnóstico de ansiedade?
Sim. Um ataque isolado não define um diagnóstico. Qualquer pessoa pode ter um ataque de pânico pontual em resposta a stress extremo. O diagnóstico de perturbação de pânico implica ataques recorrentes e o medo persistente de que voltem a acontecer.
Já passaram mais de 20 anos desde o passeio da Avenida da República. Aprendi muito, sobre o que o corpo faz, sobre o que ajuda de verdade e sobre o que não funciona. Se quiseres continuar, começa por Ataques de Pânico: O Que São, Sintomas e Como Tratar. E se quiseres partilhar o que viveste, deixa um comentário
Isto é a minha experiência, não um conselho clínico. Precisas de ajuda? Linha SNS 24: 808 24 24 24.
