
Quando o médico me receitou ansiolíticos e antidepressivos pela primeira vez, ninguém me explicou o que realmente ia acontecer a seguir.
Os ansiolíticos e antidepressivos ajudam a controlar os sintomas da ansiedade e do pânico, mas não curam a causa sozinhos. Portugal é, aliás, o país da Europa com maior consumo deste tipo de medicação, segundo dados citados pela Lusíadas Saúde. Eu fui só mais um número nessa estatística, e o que vou contar aqui é o que vivi por dentro desse processo, incluindo a parte que quase ninguém partilha, o desmame.
O que são os ansiolíticos e antidepressivos, na prática
Os ansiolíticos atuam rápido e aliviam o pico da ansiedade, mas foram feitos para uso curto, porque o corpo habitua-se com facilidade. Os antidepressivos funcionam de forma diferente, demoram semanas a fazer efeito e trabalham devagar, regulando o funcionamento do cérebro a longo prazo.
No meu caso, tomei os dois ao mesmo tempo durante cerca anos, e em demasia numa altura em que a agorafobia me tinha fechado em casa três meses seguidos, sem conseguir sair do quarto a não ser para ir à casa de banho. Só percebi a diferença entre os dois tipos de medicamento muito depois de começar a tomá-los, porque na altura estava demasiado exausto para pensar em mais do que sobreviver ao dia seguinte.
Porque comecei a tomar medicação
Não foi uma escolha, só queria ficar bem. Cedi porque o corpo já não aguentava mais, quando o meu peso tinha descido para valores que assustavam quem olhava para mim.
A ansiedade não afeta só a cabeça, afeta tudo à volta, como já escrevi no artigo sobre ansiedade e desemprego, onde falo do impacto que isto tem noutras áreas da vida. A medicação não resolveu a ansiedade sozinha, mas deu-me o espaço para respirar e começar a terapia que realmente fez a diferença.
O desmame foi a parte mais dura
Ninguém me avisou que parar de tomar ansiolíticos e antidepressivos seria mais difícil do que começar. O desmame de ansiolíticos e antidepressivos tem de ser feito devagar, com acompanhamento médico, porque o corpo habitua-se e reage mal a cortes bruscos. Passei várias vezes por semanas de tonturas, irritabilidade e um medo constante de que os sintomas voltassem em força assim que reduzisse a dose.
Cheguei a pensar que ia precisar destes comprimidos para o resto da vida. Essa ideia pesava mais do que os próprios efeitos secundários. Foi um processo lento, com recaídas, até finalmente conseguir ficar sem eles. Nessa altura já tinha começado a trabalhar mecanismos de sobrevivência que me ajudaram a aguentar os dias mais difíceis sem depender só da medicação.
Houve semanas em que reduzi a dose e senti tudo voltar de repente, o coração acelerado, o medo de sair de casa, a vontade de desistir do desmame e voltar à dose anterior só para ter descanso. Aprendi a distinguir entre um sintoma passageiro de retirada e um sinal real de recaída, e isso só veio com tempo e com o médico ao meu lado.
O estigma de tomar medicação para a ansiedade
Há ainda muita gente que olha para quem toma antidepressivos como se fosse menos capaz ou menos forte. Isso nunca fez sentido para mim. Tratar a mente com medicação é tão legítimo como tratar qualquer outra parte do corpo. O que fez a diferença foi perceber que pedir ajuda, incluindo ajuda farmacológica, não é fraqueza, é responsabilidade por mim próprio.
Se atravessaste uma fase parecida com a que descrevo na altura da agorafobia, sabes do que falo. A vergonha de precisar de ansiolíticos e antidepressivossó piora quando já se está a lidar com o isolamento que a ansiedade traz. Com o tempo aprendi a responder a esses comentários com calma, sem entrar em confrontos, porque quem nunca sentiu o corpo em pânico dificilmente entende o alívio que um medicamento certo pode trazer numa fase de crise.
Perguntas frequentes sobre medicação para a ansiedade
Estes medicamentos viciam?
Os antidepressivos não costumam causar dependência física, mas alguns ansiolíticos sim, sobretudo com uso prolongado, por isso devem ser tomados sob acompanhamento médico.
Quanto tempo demoram os antidepressivos a fazer efeito?
Normalmente entre duas a seis semanas, o que exige paciência numa fase em que já se sofre bastante.
É possível parar de tomar sozinho?
Não é recomendado. O desmame de ansiolíticos e antidepressivos deve ser sempre acompanhado por um médico, com redução gradual da dose e atenção aos sintomas que possam surgir. Parar de forma abrupta, sem esse acompanhamento, foi precisamente o erro que quase cometi numa das vezes em que me senti melhor e achei que já não precisava de ajuda.
A medicação substitui a terapia?
Não. Na minha experiência, funciona melhor como apoio para conseguir chegar à terapia com mais estabilidade, não como solução isolada.
É normal sentir vergonha de tomar estes medicamentos?
É uma reação comum, mas não há motivo real para vergonha. Tratar a saúde mental com ansiolíticos e antidepressivos é tão válido como tratar qualquer doença física.
Se sentires que precisas de falar com alguém agora, o SNS24 tem uma linha de saúde mental gratuita disponível para apoio.
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